As outras pessoas
terça-feira, março 08, 2016
Sabia-lhe bem sentir o vento fresco na cara. As outras pessoas queixavam-se de que era muito frio; as mesmas que, na outra semana, maldiziam a chuva que tinha caído.
Também gostava de sentir a chuva. Aos primeiros pingos, inclinava a cabeça para o céu, estendia os braços e sentia os salpicos a pontear o rosto e as palmas. Com as mãos vazias, sentia-se cheia da vida do mundo. Quem a visse das nuvens, via-lhe um sorriso a inundar o rosto.
As outras pessoas nem olhavam para cima... Andavam tão cabisbaixas que pareciam alagadas pela chuva. Eram uma lágrima mais molhada que as nuvens cinzentas de onde vinham os pingos. A ela, o cinzento das nuvens não lhe dizia nada, só o molhado dos pingos e o vento fresco, que adorava sentir no corpo.
Nos primeiros dias de Primavera, rompiam os queixumes do costume das outras pessoas: do excesso de pólen, do ruído da passarada ou da fraca colheita de morangos. Ela, não, deliciava-se com o aroma das flores, escutava o canto dos pássaros que regressavam e arrepiava-se com o amargo dos morangos. Adorava aquele sismo epidérmico que deixava os pêlos em escala de riste. Saboreava-os com a língua e com a pele e sentia-se feliz ao sentir o mundo.
Para a imaginação deixava apenas um sentir... De como seria o mundo se pudesse ver como as outras pessoas. Não via... Nem os pingos, nem as nuvens, nem o vermelho dos morangos, mas sentia-se cheia da vida do mundo.




















