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A cor do outono

terça-feira, novembro 13, 2018


O caminho para o castanheiro não é o mesmo sem a avó. Ela partiu quando o outono chegou, e a água ainda lhe cai dos olhos como as folhas das árvores: devagar, para não dar conta do quanto se sente despida por dentro.

Vai com o avô, que, mesmo desfolhado, teima em garantir a colheita de um ano de trabalho. É teimoso, o avô, quase tanto quanto ela. Foi da teimosia dele que nasceu a mãe, quando os doutores da cidade garantiam que o ventre da avó era como a terreno do barreiro: não dava para fazer crescer nem uma oliveira.

O avô plantou lá um olival e, dez anos volvidos, já se acendia o candeeiro com o azeite da colheita, a avó já tinha dado à luz e os olhos de todos estavam mais brilhantes que o sol da manhã nas gotas de orvalho.

Vinte e cinco outonos depois, nasceu ela e, neste, a luz da avó apagou-se. Desde esse dia que o avô tem arado a alma com as coisas da terra. Deve-lhe doer o mesmo, mas, assim, sente a vida que persiste.

Ela sabe disso e, pelo caminho, areja a dor ao falar do olival, da vinha, do pomar, da lavoura da terra... O avô responde-lhe com a vivacidade da colheita: o verde ácido das maçãs, o amarelo doce das pêras, o branco-amarelado dos figos e o pujante carmesim das romãs...

Chegam ao castanheiro e dos ouriços brotam castanhas.

Está de preto, o avô, mas ele sabe que até o outono tem cor e que a vida há-de renascer depois do inverno. Ela herdou-lhe a teimosia, e tem a certeza que a avó resistiu a esta estação.

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